domingo, setembro 26, 2010

um dia muito depois de mim
em que o mundo continuará
a respirar
desenrolar-se-ão papéis escritos
e malditos
do que em gelo de minhas
mãos
se criou.
um dia muito depois
da noite
suspira a verdade
e a mentira
dos sons que a minha
alma gemeu
sem prometer.
peço socorro ao futuro
que me engrandeça
que de todo o resto
de minha carne
que apodreça
me grite ao mundo
profundo
e esquecido
que do meu gemido
não se esqueça.
um dia muito depois
de cada palavra
que moldei
o futuro de inverno
trará de volta
o fogo
o intenso lume-verso
que me fiz
e que te dei.
que me leve a morte
certa
para um poema sepulcro
que nunca acabe
para um grito no céu
escuro e suave
e me escreva
pra sempre
em cada chuvada.
que haja alma de mim
um dia e outro dia
e até mais do que dois –
que se alargue
se expanda
e a mim eternize
num verso supremo
muito mais que depois.

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