que é feito de eu ter feito
o que fiz
que é certo de eu estar certa
ou feliz
se chega a noite azeda
e sem cheiros
que é feito dos sabores
verdadeiros?
tropeço nos meus tombos confusos
no fim dos dias gastos sem luz
que é feito do feitiço
postiço
em que feito sumiço
eu te pus?
se te basta lembrar um momento
se apenas te arrepias por dentro
então podes morrer toda a vida
acordares na manhã de seguida
que é feito sem perfeito
ou futuro?
que é que sentes quando o peito é
um muro?
que é feito do que é feito
de água
que gostas que te digam à noite
o sono que te espera é um grito
a descer devagar ao silêncio
a dar-te o tão real de ser mito.
se me prometes beijos sem preço
pra que eu pague em saliva e em dor
promete que me agarras as garras
pergunta se eu enfim te mereço
eu dou-te cada frase em resposta
numa sem-voz aflita nas veias…
que é feito do teu corpo à mostra? –
quando eu a mergulhar-te
no meu corpo de arte
e doideiras.
Francisca Augusto
Poesia
domingo, setembro 26, 2010
vida pobre que é assim
pobre vida que assim seja
vejo a passar
o tempo
o vento
ruas casas
pessoas enganadas
e tenho-me de certeza
certa
que nenhures vou eu ser
vida
pobre ou desenganada
vida a que se chame
um nome um registo
sequer sarrabisco.
por que é que
de toda a gente que existe
nós acordamos
e somos sempre aquela besta?
...
porém
besta sem engano
e algures a provar
a terna lanterna
das noites.
vida pobre que é assim
não mais há-de lamentar
que assim seja.
pobre vida que assim seja
vejo a passar
o tempo
o vento
ruas casas
pessoas enganadas
e tenho-me de certeza
certa
que nenhures vou eu ser
vida
pobre ou desenganada
vida a que se chame
um nome um registo
sequer sarrabisco.
por que é que
de toda a gente que existe
nós acordamos
e somos sempre aquela besta?
...
porém
besta sem engano
e algures a provar
a terna lanterna
das noites.
vida pobre que é assim
não mais há-de lamentar
que assim seja.
trago-te na saliva dos meus olhos
retrato inaugurado a cada olhar
e seguro-te no corpo
caído em estrago
a cada passar do tempo.
não és mais que o sussurro do meu ser
e és no entanto mais
que qualquer mundo
espalhado
espelhado.
arranco-te de cada livro
cada página
e brinco com os teus braços
ao som dos meus –
na esfera infindável
do morrer
e renascer.
alegro-me de ti
a cada viagem de montanhas
e gritos e ventos e chamas
mas tu não chamas
não ouves não dizes não és.
se tu és a imagem que fica de mim
em cada resto em cada parte
em cada inverno
tu és o que eu sou doente intacta
paraíso inferno
uma deusa que beija
e que mata.
se a ti que trago no medo
e nas certezas
se a ti que carrego nos dias
nas horas
nas tristezas
se a ti tenho de olhar e
tentar entender
então não perco de olhar-te
sugar-te a luz e levar-te
eu quero ser-te
a saliva
o abraço
o condão
trocar o passo
embalar-te
esfolar-te no chão.
e é ao trazer-te
que te limpo o olhar
que te dou de beber
e te digo que o tempo
é mais confuso se passa
é mais tranquilo se pára.
e à fome nossa de abrigo
trocamos olhos de lava
– somos só uma de vez –
duas almas em corpo
de diva.
e no sossego que se segue
seguro-te de novo
no corpo
e enxugo dos olhos a saliva.
retrato inaugurado a cada olhar
e seguro-te no corpo
caído em estrago
a cada passar do tempo.
não és mais que o sussurro do meu ser
e és no entanto mais
que qualquer mundo
espalhado
espelhado.
arranco-te de cada livro
cada página
e brinco com os teus braços
ao som dos meus –
na esfera infindável
do morrer
e renascer.
alegro-me de ti
a cada viagem de montanhas
e gritos e ventos e chamas
mas tu não chamas
não ouves não dizes não és.
se tu és a imagem que fica de mim
em cada resto em cada parte
em cada inverno
tu és o que eu sou doente intacta
paraíso inferno
uma deusa que beija
e que mata.
se a ti que trago no medo
e nas certezas
se a ti que carrego nos dias
nas horas
nas tristezas
se a ti tenho de olhar e
tentar entender
então não perco de olhar-te
sugar-te a luz e levar-te
eu quero ser-te
a saliva
o abraço
o condão
trocar o passo
embalar-te
esfolar-te no chão.
e é ao trazer-te
que te limpo o olhar
que te dou de beber
e te digo que o tempo
é mais confuso se passa
é mais tranquilo se pára.
e à fome nossa de abrigo
trocamos olhos de lava
– somos só uma de vez –
duas almas em corpo
de diva.
e no sossego que se segue
seguro-te de novo
no corpo
e enxugo dos olhos a saliva.
não costumo consultar os deuses
das inspirações maiores
e não vou lá fora olhar
as luas as estrelas e os caminhos
de terra
não ouço as músicas que se devem ouvir
nem olho os olhares profundos
que soltam a chama
que empurra a tinta.
não e não
apenas isto.
e de todas as forças cruzadas
que se fazem sentir
sem sentido
pego em foleiras folhas
aos quadrados
e escrevo-vos
meus lindos poemas filhos
da mão.
das inspirações maiores
e não vou lá fora olhar
as luas as estrelas e os caminhos
de terra
não ouço as músicas que se devem ouvir
nem olho os olhares profundos
que soltam a chama
que empurra a tinta.
não e não
apenas isto.
e de todas as forças cruzadas
que se fazem sentir
sem sentido
pego em foleiras folhas
aos quadrados
e escrevo-vos
meus lindos poemas filhos
da mão.
será que só amanhece aqui
no sítio onde estou.
será que só eu sinto
beijos
e confortos
e ventos ligeiros
a roçarem a pele do meu sorriso.
grandiosa a noite
que me deita
cobre com a roupa
e ajeita
que me grita que chegarás
no meu sono.
nos céus não se fala
de outra coisa –
nas tuas chegadas
caladas
aos meus sonos fingidos.
depois
os deuses não querem ver.
é por isso que eu pergunto
se só aqui
no sítio onde estou
é que amanhece.
acho –
e empino o nariz
na direcção
das estrelas –
que os deuses devem ter ciúmes
de nós.
quando amanhecer
não vás embora, amor.
cobre-nos…
no sítio onde estou.
será que só eu sinto
beijos
e confortos
e ventos ligeiros
a roçarem a pele do meu sorriso.
grandiosa a noite
que me deita
cobre com a roupa
e ajeita
que me grita que chegarás
no meu sono.
nos céus não se fala
de outra coisa –
nas tuas chegadas
caladas
aos meus sonos fingidos.
depois
os deuses não querem ver.
é por isso que eu pergunto
se só aqui
no sítio onde estou
é que amanhece.
acho –
e empino o nariz
na direcção
das estrelas –
que os deuses devem ter ciúmes
de nós.
quando amanhecer
não vás embora, amor.
cobre-nos…
ao longe eu ouço aves
de papel
como que me abraçassem
como que me levassem
ao grito mais alto
que se possa dar
ao poço mais fundo
em que se possa cair
e é ao céu que dói mais
quando eu me atiro
quando eu me esbarro
em barro
de te esculpir
em calor
de te sentir.
cai neve cai chuva cai dentro
amarro-te para sempre
com sede com cordas
se tu realmente
concordas.
se te dou o sufixo
é para que não te dê o sumiço
e nos meus braços de madeira
a ranger a partir
o suor do teu cheiro
não tenha medo
de cair.
de papel
como que me abraçassem
como que me levassem
ao grito mais alto
que se possa dar
ao poço mais fundo
em que se possa cair
e é ao céu que dói mais
quando eu me atiro
quando eu me esbarro
em barro
de te esculpir
em calor
de te sentir.
cai neve cai chuva cai dentro
amarro-te para sempre
com sede com cordas
se tu realmente
concordas.
se te dou o sufixo
é para que não te dê o sumiço
e nos meus braços de madeira
a ranger a partir
o suor do teu cheiro
não tenha medo
de cair.
por mim a terra chora
e eu não sou deus
por mim se faz a hora
do adeus
por mim, valente
ausente
toda a gente
se ajoelha
aos pés meus.
concretamente
peço asilo aos céus
da mente
mundial
que hoje é dia e sonho
e assim me ponho
estatual.
por mim o mundo faz-se
por mim a carne chora
e é assim
que a vida nasce
muito embora…
e eu não sou deus
por mim se faz a hora
do adeus
por mim, valente
ausente
toda a gente
se ajoelha
aos pés meus.
concretamente
peço asilo aos céus
da mente
mundial
que hoje é dia e sonho
e assim me ponho
estatual.
por mim o mundo faz-se
por mim a carne chora
e é assim
que a vida nasce
muito embora…
suspiro. atónito
o arrepiado perfume das flores
e no entanto és tu
que cantas as tristezas
no meu colo
és tu onda enrolada
em minha areia –
e eu perturbo os céus
a gritar por ti
os gostos que
nós gostamos
já não se entendem
e a dormir em meus
braços
és tu chuva desolada
em onda enrolada
a fingir a fuga.
dorme
dorme no meu último suspiro
de princesa
em que te afogo
afago
em água acesa.
para que os céus
atordoados
te levem onda
ao farol
da minha casa.
o arrepiado perfume das flores
e no entanto és tu
que cantas as tristezas
no meu colo
és tu onda enrolada
em minha areia –
e eu perturbo os céus
a gritar por ti
os gostos que
nós gostamos
já não se entendem
e a dormir em meus
braços
és tu chuva desolada
em onda enrolada
a fingir a fuga.
dorme
dorme no meu último suspiro
de princesa
em que te afogo
afago
em água acesa.
para que os céus
atordoados
te levem onda
ao farol
da minha casa.
o natal do teu corpo
presente envenenado
é o meu presente
carente
por mim passado.
quando o sol
grande grandíssimo
grandessíssimo
filho de água
me aquece
a alma.
estremeço só de te
ver.
suplico ao universo
de verso em verso
a rima ter
pra te chamar pra te
esculpir.
e essa estátua
deus grego inviolável
enlouquecido
aterra
na minha terra
e não passa um
dia
sem casar comigo.
pergunto-te,
estátua do meu natal,
em que meia-noite
tu me vais tirar a meia?
presente envenenado
é o meu presente
carente
por mim passado.
quando o sol
grande grandíssimo
grandessíssimo
filho de água
me aquece
a alma.
estremeço só de te
ver.
suplico ao universo
de verso em verso
a rima ter
pra te chamar pra te
esculpir.
e essa estátua
deus grego inviolável
enlouquecido
aterra
na minha terra
e não passa um
dia
sem casar comigo.
pergunto-te,
estátua do meu natal,
em que meia-noite
tu me vais tirar a meia?
o relógio não diz
o que te vai na alma
não diz – por exemplo
se te é breve o tempo
ou se tens toda a calma.
no prenúncio aceso
de uma qualquer manhã
interrompes um sono
e de um golo morno
da chávena do chá
perdeste o teu gesto.
resta um dia funesto
desta vida que é má.
tu julgas que amas
que o amor sempre existe
porque nunca partiste
na viagem cruel
de uma dor paralela.
o qu’é verdade ou não é
diz-to a tua fé
ou o que resta dela.
já que nem tudo é mal
nem mentira ou lamento
tu procuras lá dentro
só não sabes o quê.
mas se encontras magia
ou qualquer vibração
tu descobres então
que a verdade existia.
o relógio não diz
o que tu queres saber
o que tu perguntaste.
a tu’alma tem medo
o teu corpo é brinquedo
com que sempre brincaste.
tu só querias viver
um tempo que chegasse
pra saber os segredos
pra quebrar os rochedos –
na passagem de um tempo
que te abafe e te abrace
e que à má hora ofereça
uma porta de impasse
uma dor que a estremeça.
que te diz o relógio?
que é que tu perguntaste?
se é chegada essa hora
em que tens de ir embora –
ou será
qu’inda agora
chegaste?...
de que serve o amor?
já acreditas que amas?
não te chega uma vida
pra tu veres concedida
essa paz que tu chamas!
já fizeste a pergunta?
e ainda estás à espera?
se ninguém respondeu
a resposta sou eu
e a pergunta… qual era?
o que te vai na alma
não diz – por exemplo
se te é breve o tempo
ou se tens toda a calma.
no prenúncio aceso
de uma qualquer manhã
interrompes um sono
e de um golo morno
da chávena do chá
perdeste o teu gesto.
resta um dia funesto
desta vida que é má.
tu julgas que amas
que o amor sempre existe
porque nunca partiste
na viagem cruel
de uma dor paralela.
o qu’é verdade ou não é
diz-to a tua fé
ou o que resta dela.
já que nem tudo é mal
nem mentira ou lamento
tu procuras lá dentro
só não sabes o quê.
mas se encontras magia
ou qualquer vibração
tu descobres então
que a verdade existia.
o relógio não diz
o que tu queres saber
o que tu perguntaste.
a tu’alma tem medo
o teu corpo é brinquedo
com que sempre brincaste.
tu só querias viver
um tempo que chegasse
pra saber os segredos
pra quebrar os rochedos –
na passagem de um tempo
que te abafe e te abrace
e que à má hora ofereça
uma porta de impasse
uma dor que a estremeça.
que te diz o relógio?
que é que tu perguntaste?
se é chegada essa hora
em que tens de ir embora –
ou será
qu’inda agora
chegaste?...
de que serve o amor?
já acreditas que amas?
não te chega uma vida
pra tu veres concedida
essa paz que tu chamas!
já fizeste a pergunta?
e ainda estás à espera?
se ninguém respondeu
a resposta sou eu
e a pergunta… qual era?
lembras-te de quando tu morreste…?
lembras-te do dia em que
quiseste voltar a abrir os olhos
e não conseguiste…?
estávamos tão longe…
tu a morreres devagarinho
e eu sem conseguir chegar lá
a tempo.
eu chorei todas as noites
e pedi para tu voltares para mim,
para eu te ver a qualquer hora
em qualquer sítio.
percorri tantas ruas à tua procura;
voltei para trás tantas vezes
para ver se eras tu que ias a passar
ou outro morto qualquer…
fixei tantos olhares;
chamei tantas vezes por ti…
chamei-te! gritei por ti!
e mesmo assim tu teimaste sempre
em morrer.
julgas que aqueles sonhos
me chegaram?...
tu ao longe a dizeres
que não vinhas ter comigo.
que seria mais difícil nos separarmos
depois de a gente se tocar…
não percebes que eu queria as tuas mãos?!
não percebes que eu precisava
que me ensinasses
a deixar-te morrer…?
tenho sempre frio.
tenho sempre medo.
não percebes que eu queria
ter morrido contigo?...
eu continuo a procurar-te em todas as ruas.
continuo a acender-te em todas as velas.
continuo a chamar por ti…
não percebes que eu quero as tuas mãos…?
não percebes que eu nunca
te vou deixar morrer…?
lembras-te do dia em que
quiseste voltar a abrir os olhos
e não conseguiste…?
estávamos tão longe…
tu a morreres devagarinho
e eu sem conseguir chegar lá
a tempo.
eu chorei todas as noites
e pedi para tu voltares para mim,
para eu te ver a qualquer hora
em qualquer sítio.
percorri tantas ruas à tua procura;
voltei para trás tantas vezes
para ver se eras tu que ias a passar
ou outro morto qualquer…
fixei tantos olhares;
chamei tantas vezes por ti…
chamei-te! gritei por ti!
e mesmo assim tu teimaste sempre
em morrer.
julgas que aqueles sonhos
me chegaram?...
tu ao longe a dizeres
que não vinhas ter comigo.
que seria mais difícil nos separarmos
depois de a gente se tocar…
não percebes que eu queria as tuas mãos?!
não percebes que eu precisava
que me ensinasses
a deixar-te morrer…?
tenho sempre frio.
tenho sempre medo.
não percebes que eu queria
ter morrido contigo?...
eu continuo a procurar-te em todas as ruas.
continuo a acender-te em todas as velas.
continuo a chamar por ti…
não percebes que eu quero as tuas mãos…?
não percebes que eu nunca
te vou deixar morrer…?
livre. livre. livre. libelinha.
corre o risco. morde o isco.
puxa a linha.
come. dorme. some.
morde a lua de papel.
hora nova. nove exacto.
é de facto. hora certa.
faz bolinhas. entre linhas.
entrecosto. rosto. pele.
mira o alvo. cospe a seta.
entre a vida. entre a morte.
faz-se à sorte. sobe a norte.
segue a estrela. sopra a vela.
pinta um quadro. rasga a tela.
num minuto que se conta.
numa hora que não chega.
sobe a trote. no cavalo.
dá dois coices. que regalo.
não se livra. não se monta.
chega a conta. é pagá-lo.
livre. livre. livre. libelinha.
corre o risco. morde o isco.
puxa a linha.
salta. pula. mexe. sai da creche.
cresce. grande. forte.
quem lhe corte. o sarrabisco.
no flagelo. cai a água.
sai o gelo. fica a pedra.
tira a teima. tira a teia. da aranha.
não se engata. não se apanha.
dói-lhe o corpo. dói-lhe o ventre.
quando é morto. já não sente.
já não fica. já não faca.
que te corta. que te mata.
nesta mata. neste mato. de consolo.
com um tolo. está de molho. na travessa.
sai de cima. sai de baixo.
não empurre. não impeça.
livre. livre. livre. libelinha.
corre o risco. morde o isco.
puxa a linha.
puxa. pesca. o pescador.
limpa a testa. pesca a dor.
já se sente. o frio. à frente.
dorme besta. acorda gente.
sente cismas. de poeta. de pintor.
barca aberta. ao pescador.
dois silêncios. bem pesados.
dois balofos. dois inchados.
livre. livre. livre. libelinha.
dois passinhos tristes. de menina.
a chorar. a chorar. a chorar.
que é pequenina...
corre o risco. morde o isco.
puxa a linha.
come. dorme. some.
morde a lua de papel.
hora nova. nove exacto.
é de facto. hora certa.
faz bolinhas. entre linhas.
entrecosto. rosto. pele.
mira o alvo. cospe a seta.
entre a vida. entre a morte.
faz-se à sorte. sobe a norte.
segue a estrela. sopra a vela.
pinta um quadro. rasga a tela.
num minuto que se conta.
numa hora que não chega.
sobe a trote. no cavalo.
dá dois coices. que regalo.
não se livra. não se monta.
chega a conta. é pagá-lo.
livre. livre. livre. libelinha.
corre o risco. morde o isco.
puxa a linha.
salta. pula. mexe. sai da creche.
cresce. grande. forte.
quem lhe corte. o sarrabisco.
no flagelo. cai a água.
sai o gelo. fica a pedra.
tira a teima. tira a teia. da aranha.
não se engata. não se apanha.
dói-lhe o corpo. dói-lhe o ventre.
quando é morto. já não sente.
já não fica. já não faca.
que te corta. que te mata.
nesta mata. neste mato. de consolo.
com um tolo. está de molho. na travessa.
sai de cima. sai de baixo.
não empurre. não impeça.
livre. livre. livre. libelinha.
corre o risco. morde o isco.
puxa a linha.
puxa. pesca. o pescador.
limpa a testa. pesca a dor.
já se sente. o frio. à frente.
dorme besta. acorda gente.
sente cismas. de poeta. de pintor.
barca aberta. ao pescador.
dois silêncios. bem pesados.
dois balofos. dois inchados.
livre. livre. livre. libelinha.
dois passinhos tristes. de menina.
a chorar. a chorar. a chorar.
que é pequenina...
mais a sede que poemas
mais a saliva de tos dizer
que a tinta que os escreve
mais eu corpo neve e fogo
meu sussurro
sal e outono
perder-me eu aqui
cega e sedenta
de tanto ceder
bruxa
confusa
raio de sombra
perder-me eu em ti
sede
perder-me de amores
perder-me de poemas
pedras e pratas
sossega-me a sede
e escreve-me de versos saltos
soltos insultos
raio eu sem luz
sombra a perder-me
sede
que sede
que sede esta mais que poemas
perder-me eu aqui
de sedes e de poemas
porque mais que eu aqui
à fome
é a sede santa a soltar-se
e a morrer
profana
em lábios rimados.
mais a saliva de tos dizer
que a tinta que os escreve
mais eu corpo neve e fogo
meu sussurro
sal e outono
perder-me eu aqui
cega e sedenta
de tanto ceder
bruxa
confusa
raio de sombra
perder-me eu em ti
sede
perder-me de amores
perder-me de poemas
pedras e pratas
sossega-me a sede
e escreve-me de versos saltos
soltos insultos
raio eu sem luz
sombra a perder-me
sede
que sede
que sede esta mais que poemas
perder-me eu aqui
de sedes e de poemas
porque mais que eu aqui
à fome
é a sede santa a soltar-se
e a morrer
profana
em lábios rimados.
as palavras são difíceis
saltam escorregam-me das mãos
palavras líquidas
serpentes
pa
pala
palavra
e ar
palavrear
as palavras não querem saber
não querem pousar
eu sou do lume o que não vejo
ditem-me as mãos o que quero
escrever
qualquer coisa disto é tudo loucura
é tudo essa voz
perdida no grito
que se quer perceber
as palavras são o vício
ofício
egossacrifício
que o tempo faz dormir
ou faz correr
no sangue-papel
orelha olheira
bebedeira
bebe-se as palavras difíceis
e o mar é
re
don
do
sobre nós.
saltam escorregam-me das mãos
palavras líquidas
serpentes
pa
pala
palavra
e ar
palavrear
as palavras não querem saber
não querem pousar
eu sou do lume o que não vejo
ditem-me as mãos o que quero
escrever
qualquer coisa disto é tudo loucura
é tudo essa voz
perdida no grito
que se quer perceber
as palavras são o vício
ofício
egossacrifício
que o tempo faz dormir
ou faz correr
no sangue-papel
orelha olheira
bebedeira
bebe-se as palavras difíceis
e o mar é
re
don
do
sobre nós.
por que te gelas suave corpo
meu
em cada noite
dos dias de minhas forças
esforçadas
menos sangue teu circula
ondula
escorrega nas veias azuladas
sirvo-me a luz triste
dos versos candeeiros de minha
ficção
e fico a rebolar-me
contorcendo o corpo
no chão
por que te vais suave voz
alma sem cor
por que te dizes poema
debaixo de lema de dor
à noite todas as casas
desaparecem
escondes-te tu suave deusa
em caixas vazias enroscada
doente expoente
de cristais de pó e
de nada
por que te matas
suave duro corpo
por que morres
assim chovido
na estrada...
meu
em cada noite
dos dias de minhas forças
esforçadas
menos sangue teu circula
ondula
escorrega nas veias azuladas
sirvo-me a luz triste
dos versos candeeiros de minha
ficção
e fico a rebolar-me
contorcendo o corpo
no chão
por que te vais suave voz
alma sem cor
por que te dizes poema
debaixo de lema de dor
à noite todas as casas
desaparecem
escondes-te tu suave deusa
em caixas vazias enroscada
doente expoente
de cristais de pó e
de nada
por que te matas
suave duro corpo
por que morres
assim chovido
na estrada...
tece o tecelão a sua cela
tece no muro no morro
lá dentro se senta
o tecelão
a tecelar
cá fora um lá fora pra lá do muro
do morro
a tecer um forro
para a alma forrar
tecela o tecelão a parede
e o chão
tecela a tecer a cela
que o faz morrer
que o faz calar
poeta tecelão ausente
dormente
num ninho forrado
de palavras tecidas
teceladas
fosses um actor
de palcos escondidos
os panos corridos
a gritares no centro
mas és um tecelão da alma
o tecelão poeta
a tecelar
pra dentro.
tece no muro no morro
lá dentro se senta
o tecelão
a tecelar
cá fora um lá fora pra lá do muro
do morro
a tecer um forro
para a alma forrar
tecela o tecelão a parede
e o chão
tecela a tecer a cela
que o faz morrer
que o faz calar
poeta tecelão ausente
dormente
num ninho forrado
de palavras tecidas
teceladas
fosses um actor
de palcos escondidos
os panos corridos
a gritares no centro
mas és um tecelão da alma
o tecelão poeta
a tecelar
pra dentro.
crepita o crepúsculo do opúsculo
dos meus versos
onde eu sou escrivista baptista
de cada letra nominal –
da sedenta vogal
consoante
a água da sinistra
consoante seguinte –
e por conseguinte
rasgo no papel com tinta tanta
o grito perito da palavra
absurda e solene
que é disforme e perene
em perigo nos meus dedos
e é cuidadosa-a-mente
que suplicando –
te atinge e finge que não quer
se o assunto eu pergunto
e o alfabeto parado concreto
suspirando –
não quer responder.
dos meus versos
onde eu sou escrivista baptista
de cada letra nominal –
da sedenta vogal
consoante
a água da sinistra
consoante seguinte –
e por conseguinte
rasgo no papel com tinta tanta
o grito perito da palavra
absurda e solene
que é disforme e perene
em perigo nos meus dedos
e é cuidadosa-a-mente
que suplicando –
te atinge e finge que não quer
se o assunto eu pergunto
e o alfabeto parado concreto
suspirando –
não quer responder.
sentada no silêncio
do meu quarto de espuma
ouvindo o nada ao longe
a esperar que eu durma
a confessar-me em gelo
do calor que não tenho
sem ter qualquer certeza
do lugar de onde venho.
e é na chuva –
nessa chuva de verão
nesse sim que é não
nessa leva que lava
o corpo o grito
e o chão
é nessa chuva...
a sós com um segredo
que me esfola os sentidos
dançando co’a loucura
dos meus sonos perdidos
não sei se há lá fora
alguma luz de ser dia
não sei se é castigo
ou se tenho o que queria.
e é na chuva –
nessa chuva de verão
nesse sim que é não
nessa leva que lava
o corpo o grito
e o chão
é nessa chuva...
no meu silêncio exacto
deste corpo sentado
só sinto o cheiro a chuva
a chover no molhado
e bebo cada gota
deste tempo esquecido
empresto um espaço à noite
que se senta comigo.
e é na chuva –
nessa chuva de verão
nesse sim que é não
nessa leva que lava
o corpo o grito
e o chão
é nessa chuva...
que eu molho o meu corpo
que relembro os segredos
que dissolvo os meus medos
e agarro a tua mão –
é nessa chuva...
é nessa chuva
de verão.
do meu quarto de espuma
ouvindo o nada ao longe
a esperar que eu durma
a confessar-me em gelo
do calor que não tenho
sem ter qualquer certeza
do lugar de onde venho.
e é na chuva –
nessa chuva de verão
nesse sim que é não
nessa leva que lava
o corpo o grito
e o chão
é nessa chuva...
a sós com um segredo
que me esfola os sentidos
dançando co’a loucura
dos meus sonos perdidos
não sei se há lá fora
alguma luz de ser dia
não sei se é castigo
ou se tenho o que queria.
e é na chuva –
nessa chuva de verão
nesse sim que é não
nessa leva que lava
o corpo o grito
e o chão
é nessa chuva...
no meu silêncio exacto
deste corpo sentado
só sinto o cheiro a chuva
a chover no molhado
e bebo cada gota
deste tempo esquecido
empresto um espaço à noite
que se senta comigo.
e é na chuva –
nessa chuva de verão
nesse sim que é não
nessa leva que lava
o corpo o grito
e o chão
é nessa chuva...
que eu molho o meu corpo
que relembro os segredos
que dissolvo os meus medos
e agarro a tua mão –
é nessa chuva...
é nessa chuva
de verão.
seja certo que eu te diga
o frio de mim
que descalça nas noites do teu
corpo
receba o calor
que é certo que me digas
e me tragas.
seja certo o nosso tempo
em certa medida
seja o céu o sítio certo
depois da tua
da minha vida.
tudo o que em mim não foi
decalcado
é agora recalcado
e eu espero-te.
no frio escuro vão
do teu não-querer
no esperado sítio certo
do meu espaço de morrer
na ferida que eu te diga
e que eu te veja –
a gritar em corpo aberto
que por certo
certo seja.
o frio de mim
que descalça nas noites do teu
corpo
receba o calor
que é certo que me digas
e me tragas.
seja certo o nosso tempo
em certa medida
seja o céu o sítio certo
depois da tua
da minha vida.
tudo o que em mim não foi
decalcado
é agora recalcado
e eu espero-te.
no frio escuro vão
do teu não-querer
no esperado sítio certo
do meu espaço de morrer
na ferida que eu te diga
e que eu te veja –
a gritar em corpo aberto
que por certo
certo seja.
é com quase nada
que te digo tudo
de nós e das florestas
ressurjo-me aflita
aqui e ali e outra vez
que para lá de mim não vás
que de menos de ti não dês
e que o olhar absoluto
das nossas mãos
se desarticule e relativize
para que em cada um dos lagos
dos chãos e das peles
haja um olhar nosso
em instantes eternos de nós
um olhar de olhos
um olhar de mãos
e olhares ínfimos de pó e lava
que nos prende nos lava
e em nós permaneçamos
longe
intermináveis
e que seja com quase nada
que nos digamos tudo
do nosso amor.
que te digo tudo
de nós e das florestas
ressurjo-me aflita
aqui e ali e outra vez
que para lá de mim não vás
que de menos de ti não dês
e que o olhar absoluto
das nossas mãos
se desarticule e relativize
para que em cada um dos lagos
dos chãos e das peles
haja um olhar nosso
em instantes eternos de nós
um olhar de olhos
um olhar de mãos
e olhares ínfimos de pó e lava
que nos prende nos lava
e em nós permaneçamos
longe
intermináveis
e que seja com quase nada
que nos digamos tudo
do nosso amor.
língua à fome pele na pele
as flores à flor da pele
o meu o teu papel
é noite é fome
a língua a carne come.
envio à veia o sangue teia
tenho em mira o mar
a areia
e em toalha de areal
confesso o ingresso
desta carne
em fome igual.
em ter-te ser-te dar-me
a ti
é noite é luz é sede aqui
e eu bebo sorvo arranco
a tua pele em brilho
bruma a água
espuma
e espero
espero amor por ti
é grito
é luz é sede aqui...
as flores à flor da pele
o meu o teu papel
é noite é fome
a língua a carne come.
envio à veia o sangue teia
tenho em mira o mar
a areia
e em toalha de areal
confesso o ingresso
desta carne
em fome igual.
em ter-te ser-te dar-me
a ti
é noite é luz é sede aqui
e eu bebo sorvo arranco
a tua pele em brilho
bruma a água
espuma
e espero
espero amor por ti
é grito
é luz é sede aqui...
peço-te ao menos uma pétala de beijo
um som que ao longe nunca se apague
um torpor de carne morna ou esquecida
tanto faz
mas ao menos uma pétala
um cheiro oblíquo da tua fronte
inclinada sobre qualquer parte de mim.
uma pétala, amor
um sangue frio quente
acima abaixo das veias teias colmeias
um choro como chuva
miudinha
uma pétala tua em terra minha.
peço-te ao menos uma pétala de beijo
um som que ao longe nunca se apague
um pedaço de ti que nunca acabe
um murmúrio de peles um realejo
e que na minha enseada enlouqueças
para que o divino céu nunca mereças
e te afogues nu comigo
em pétalas de beijo.
um som que ao longe nunca se apague
um torpor de carne morna ou esquecida
tanto faz
mas ao menos uma pétala
um cheiro oblíquo da tua fronte
inclinada sobre qualquer parte de mim.
uma pétala, amor
um sangue frio quente
acima abaixo das veias teias colmeias
um choro como chuva
miudinha
uma pétala tua em terra minha.
peço-te ao menos uma pétala de beijo
um som que ao longe nunca se apague
um pedaço de ti que nunca acabe
um murmúrio de peles um realejo
e que na minha enseada enlouqueças
para que o divino céu nunca mereças
e te afogues nu comigo
em pétalas de beijo.
é no teu peito
que eu embarco
em barco
em carne.
é só no teu peito
que consigo morrer
renascer
salvar-me.
é lá que a hora se faz dia
se faz noite
e se faz água.
um quadro assinado
borratado
o teu peito no meu peito
assim sujeito
assim colado.
de que importa
a porta
não estar fechada?
por quem vela
a vela
se está apagada?
quem seremos nós
em grito
em fome
em dor suculenta
desta entrada lenta
que em mim se some?
é só no teu peito
que eu me perpeituo
que eu deslizo e suo
que eu te olho aflita
que eu te ard’ e abuso
te dou outro uso
é no peito mato
que eu quase te mato
é no peito bosque
que queres que eu te doa
que queres que eu
me enrosque
e é lá que eu vivo
me acordo
e deito –
não tenho mais nada
a não ser morada
rés do
chão
do peito.
que eu embarco
em barco
em carne.
é só no teu peito
que consigo morrer
renascer
salvar-me.
é lá que a hora se faz dia
se faz noite
e se faz água.
um quadro assinado
borratado
o teu peito no meu peito
assim sujeito
assim colado.
de que importa
a porta
não estar fechada?
por quem vela
a vela
se está apagada?
quem seremos nós
em grito
em fome
em dor suculenta
desta entrada lenta
que em mim se some?
é só no teu peito
que eu me perpeituo
que eu deslizo e suo
que eu te olho aflita
que eu te ard’ e abuso
te dou outro uso
é no peito mato
que eu quase te mato
é no peito bosque
que queres que eu te doa
que queres que eu
me enrosque
e é lá que eu vivo
me acordo
e deito –
não tenho mais nada
a não ser morada
rés do
chão
do peito.
sinto a voz dos teus passos na noite dos meus
insone e desassossegada
procuro os teus passos
e mais nada
sinto na planície imensa e tensa
do meu corpo singular
o vento da tua boca
que o faz gemer e ondular
sinto
sinto que me espanto
sinto que levanto um manto-pele
que toda me borbulho
em êxtase primordial
corpo de relíquia
de mural
esta noite és longe e és de vento
esta eu sou lume pó por dentro
sinto-te a subir em mim
pecado
eu a florescer-me sem saber-me
do meu estado
sinto o teu hálito líquido
na noite dos meus passos sozinhos
e durmo corpo em planície
matéria desagregada
bebo-te vento
por mim adentro
no meu cheiro de noite assim quebrada
e sinto os teus passos passageiros
a rondar o meu morto
planicorpo
na noite calada dos meus cheiros.
insone e desassossegada
procuro os teus passos
e mais nada
sinto na planície imensa e tensa
do meu corpo singular
o vento da tua boca
que o faz gemer e ondular
sinto
sinto que me espanto
sinto que levanto um manto-pele
que toda me borbulho
em êxtase primordial
corpo de relíquia
de mural
esta noite és longe e és de vento
esta eu sou lume pó por dentro
sinto-te a subir em mim
pecado
eu a florescer-me sem saber-me
do meu estado
sinto o teu hálito líquido
na noite dos meus passos sozinhos
e durmo corpo em planície
matéria desagregada
bebo-te vento
por mim adentro
no meu cheiro de noite assim quebrada
e sinto os teus passos passageiros
a rondar o meu morto
planicorpo
na noite calada dos meus cheiros.
desenho-me das linhas do teu corpo
enquanto tu água
e eu sede de lábios
para lá dos montes
para lá das serras
estende-se expandido
o trigo dos nossos dedos
sinto em mim chuva
ou fogo
ou lágrima lástima
rendo-me aos espaços
que desenhas por entre ti
e o chão.
os dias são fortalezas
imperiais
por quem o tempo se apaixonou
e aí mora.
não me deixes ao frio
amor amor ardor
não me deixes à porta do teu corpo
se em cada instante eu posso entrar
e beber-te
enquanto tu água.
enquanto tu água
e eu sede de lábios
para lá dos montes
para lá das serras
estende-se expandido
o trigo dos nossos dedos
sinto em mim chuva
ou fogo
ou lágrima lástima
rendo-me aos espaços
que desenhas por entre ti
e o chão.
os dias são fortalezas
imperiais
por quem o tempo se apaixonou
e aí mora.
não me deixes ao frio
amor amor ardor
não me deixes à porta do teu corpo
se em cada instante eu posso entrar
e beber-te
enquanto tu água.
não percebo o adeus
de toda e qualquer coisa
que eu não queria que se fosse.
não percebo de perceber-me –
inteira
intensa
deusa e pobre
nos meus olhos
nos meus pés.
não sei o que sou
o que és
o que podemos fazer
para não dizer
adeus às coisas
às palavras
às verdades.
não percebo de perceber-te,
amor –
quando vais quando vens
quando me apagas
quando me tens.
não percebo de nós
no choro
no lago imenso das nossas luas
no medo
no calor triste
dos ventos
das ruas.
não percebo o mundo
parte nenhuma
gente
animal
objecto
penteio-me nas mãos
caminho no tecto.
que me dizes da minha vida,
amor?
a que te sabe sentir-me
a que te sabe saber-me?
a que se deve existir-me
gritar
morder-me..?
guardo em caixinhas
as tuas palavras
e as minhas.
adormeço nos teus braços
quando tenho medo
de me perder.
colo-me à tua pele
só respiro o que respiras
e em ti descanso…
quando não percebo
de perceber.
de toda e qualquer coisa
que eu não queria que se fosse.
não percebo de perceber-me –
inteira
intensa
deusa e pobre
nos meus olhos
nos meus pés.
não sei o que sou
o que és
o que podemos fazer
para não dizer
adeus às coisas
às palavras
às verdades.
não percebo de perceber-te,
amor –
quando vais quando vens
quando me apagas
quando me tens.
não percebo de nós
no choro
no lago imenso das nossas luas
no medo
no calor triste
dos ventos
das ruas.
não percebo o mundo
parte nenhuma
gente
animal
objecto
penteio-me nas mãos
caminho no tecto.
que me dizes da minha vida,
amor?
a que te sabe sentir-me
a que te sabe saber-me?
a que se deve existir-me
gritar
morder-me..?
guardo em caixinhas
as tuas palavras
e as minhas.
adormeço nos teus braços
quando tenho medo
de me perder.
colo-me à tua pele
só respiro o que respiras
e em ti descanso…
quando não percebo
de perceber.
fruta verde
do meu corpo
fruta dura
sinto o corpo
molho o corpo
dou-lhe cama
dou-lhe fome
sente o meu corpo
molha o meu corpo
dou-te esta fruta
come
carne branca
do meu corpo
carne morna
que se adorna
do teu corpo
carne breve
carne pra sempre
carne fruta
corpo-montanha
corpo-gruta
quente
noite perdida
no meu corpo
noite chorada
noite sorrida
na fruta-carne
de me consolar
de castigar-me
no corpo-noite
da minha fruta
na fruta-carne
do meu corpo quente
tento
prudente
salvar-me –
mas volta tudo
à tristeza sem espanto
abro as cortinas
e já é de dia
e dói tanto.
do meu corpo
fruta dura
sinto o corpo
molho o corpo
dou-lhe cama
dou-lhe fome
sente o meu corpo
molha o meu corpo
dou-te esta fruta
come
carne branca
do meu corpo
carne morna
que se adorna
do teu corpo
carne breve
carne pra sempre
carne fruta
corpo-montanha
corpo-gruta
quente
noite perdida
no meu corpo
noite chorada
noite sorrida
na fruta-carne
de me consolar
de castigar-me
no corpo-noite
da minha fruta
na fruta-carne
do meu corpo quente
tento
prudente
salvar-me –
mas volta tudo
à tristeza sem espanto
abro as cortinas
e já é de dia
e dói tanto.
enquanto lá fora
chovem cabeleiras de papel –
cá dentro do meu quarto
da minha boca
os éles lamentosos
e lubrificados
levantam-me a língua
elevam-me à lua
iluminam ilusões
de loucura –
e eu
ponho um braço de fora
da janela
para agarrar as cabeleiras
de papel
e com elas calar
o impulso
de cada mal
de cada él…
e sento-me em
suspenso
em suspense
suspeitando –
que é vaga a vida em volta
e se há volta…
eu não
sei quando.
chovem cabeleiras de papel –
cá dentro do meu quarto
da minha boca
os éles lamentosos
e lubrificados
levantam-me a língua
elevam-me à lua
iluminam ilusões
de loucura –
e eu
ponho um braço de fora
da janela
para agarrar as cabeleiras
de papel
e com elas calar
o impulso
de cada mal
de cada él…
e sento-me em
suspenso
em suspense
suspeitando –
que é vaga a vida em volta
e se há volta…
eu não
sei quando.
o poema não se explica
– explico-te –
não se abre em mesa como pão
não se calca ou passeia como chão.
o poema
– poemo-te –
é a comichão que sinto
a dor que não minto
que me rói os cabelos
é o som de sossegos
que querem rasgar-me cada entranha
e na poça do sangue e do fogo
gritar-me delicadamente
que o que nasce tem de esfolar-se
primeiro
parir com cada força
ou soprar tão em câmara-lenta
como quem quer beijar outra vez.
o poema
– confesso-te –
nem eu o sei fazer
e por tantas noites
em que a insónia se veste de inspiração
respondo eu de caneta na mão
a folha desfeita de tanto sofrer.
e leio-te
– o poema –
em forma de meus dedos
e com cheiro do meu sono.
– explico-te –
não se abre em mesa como pão
não se calca ou passeia como chão.
o poema
– poemo-te –
é a comichão que sinto
a dor que não minto
que me rói os cabelos
é o som de sossegos
que querem rasgar-me cada entranha
e na poça do sangue e do fogo
gritar-me delicadamente
que o que nasce tem de esfolar-se
primeiro
parir com cada força
ou soprar tão em câmara-lenta
como quem quer beijar outra vez.
o poema
– confesso-te –
nem eu o sei fazer
e por tantas noites
em que a insónia se veste de inspiração
respondo eu de caneta na mão
a folha desfeita de tanto sofrer.
e leio-te
– o poema –
em forma de meus dedos
e com cheiro do meu sono.
os lugares dispersos
são como azulejos
de mim.
um – dois um – dois
e a calma regressa
do fundo.
amor é palavra feia
sim, amor.
amor já não se diz.
o pecado prometido
das nossas noites
entrelaçadas
viaja à fome de um grito
e atinge-nos corrompe-nos
amarra-nos. e nós como
carne em ferida aberta
lutamos. vencemos.
em conta-gotas a
escorrer
tens o fio da vida
feliz
por te ver.
em conta certa a
chegar
tens os meus versos.
azulejos de
mim –
lugares dispersos.
são como azulejos
de mim.
um – dois um – dois
e a calma regressa
do fundo.
amor é palavra feia
sim, amor.
amor já não se diz.
o pecado prometido
das nossas noites
entrelaçadas
viaja à fome de um grito
e atinge-nos corrompe-nos
amarra-nos. e nós como
carne em ferida aberta
lutamos. vencemos.
em conta-gotas a
escorrer
tens o fio da vida
feliz
por te ver.
em conta certa a
chegar
tens os meus versos.
azulejos de
mim –
lugares dispersos.
um dia muito depois de mim
em que o mundo continuará
a respirar
desenrolar-se-ão papéis escritos
e malditos
do que em gelo de minhas
mãos
se criou.
um dia muito depois
da noite
suspira a verdade
e a mentira
dos sons que a minha
alma gemeu
sem prometer.
peço socorro ao futuro
que me engrandeça
que de todo o resto
de minha carne
que apodreça
me grite ao mundo
profundo
e esquecido
que do meu gemido
não se esqueça.
um dia muito depois
de cada palavra
que moldei
o futuro de inverno
trará de volta
o fogo
o intenso lume-verso
que me fiz
e que te dei.
que me leve a morte
certa
para um poema sepulcro
que nunca acabe
para um grito no céu
escuro e suave
e me escreva
pra sempre
em cada chuvada.
que haja alma de mim
um dia e outro dia
e até mais do que dois –
que se alargue
se expanda
e a mim eternize
num verso supremo
muito mais que depois.
em que o mundo continuará
a respirar
desenrolar-se-ão papéis escritos
e malditos
do que em gelo de minhas
mãos
se criou.
um dia muito depois
da noite
suspira a verdade
e a mentira
dos sons que a minha
alma gemeu
sem prometer.
peço socorro ao futuro
que me engrandeça
que de todo o resto
de minha carne
que apodreça
me grite ao mundo
profundo
e esquecido
que do meu gemido
não se esqueça.
um dia muito depois
de cada palavra
que moldei
o futuro de inverno
trará de volta
o fogo
o intenso lume-verso
que me fiz
e que te dei.
que me leve a morte
certa
para um poema sepulcro
que nunca acabe
para um grito no céu
escuro e suave
e me escreva
pra sempre
em cada chuvada.
que haja alma de mim
um dia e outro dia
e até mais do que dois –
que se alargue
se expanda
e a mim eternize
num verso supremo
muito mais que depois.
terça-feira, março 31, 2009
seguro-te nos meus braços
quando se ergue em nós
a tristeza.
quando a eclíptica dor
das nossas veias
nos traz à paz
dos nossos corpos
um doloroso momento
um oceânico silêncio.
só há luz
no cheiro dos meus seios
nada mais.
e tu e eu somos ninguém –
um ninguém
muito grande
e
muito triste –
que à noite de um olhar
se ergue aflito…
porque apenas um longo e lento
beijo
nos pode salvar.
quando se ergue em nós
a tristeza.
quando a eclíptica dor
das nossas veias
nos traz à paz
dos nossos corpos
um doloroso momento
um oceânico silêncio.
só há luz
no cheiro dos meus seios
nada mais.
e tu e eu somos ninguém –
um ninguém
muito grande
e
muito triste –
que à noite de um olhar
se ergue aflito…
porque apenas um longo e lento
beijo
nos pode salvar.
domingo, março 29, 2009
à espreita
há mais uma razão de mim
à espreita
há mais razões de nós nos habitarmos
em pleno salto
a sangue-frio
a poupar palavras
e a cansar os braços.
espreito à espreita
de mim
a encontrar todas as razões
que apenas existem para justificar.
eu espreito o meu corpo
o teu
os ramos das árvores
para que qualquer céu se pinte mar
e escorra água
e algas
e sede.
sobrevivo a espreitar em nós a vida
e as razões
e os plenos saltos
para que em plena praia
da nossa existência
perfeita –
nos amemos…
e continuemos
à espreita.
há mais uma razão de mim
à espreita
há mais razões de nós nos habitarmos
em pleno salto
a sangue-frio
a poupar palavras
e a cansar os braços.
espreito à espreita
de mim
a encontrar todas as razões
que apenas existem para justificar.
eu espreito o meu corpo
o teu
os ramos das árvores
para que qualquer céu se pinte mar
e escorra água
e algas
e sede.
sobrevivo a espreitar em nós a vida
e as razões
e os plenos saltos
para que em plena praia
da nossa existência
perfeita –
nos amemos…
e continuemos
à espreita.
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