a poesia sonha-me
sonha comigo mulher
linda
mulher maravilhosa
sonha os meus seios
os meus braços
a poesia sonha
no meu umbigo –
nasceu, porque eu nasci
a poesia sou eu
está aqui –
toda eu sou um poema
confuso difuso gritado
no corpo tenho verbos
que não se esquecem
no ventre, um verso quente
molhado –
a poesia grita-me
em cada tempo
em cada lábio
eu sou poema de mim
eu digo
que não que sim
que quero
eu sou explosão
em boca de poema
de fonema, beijado
sincero –
a poesia sonha
lambe
cheira
o meu corpo uno
soturno oportuno
e à minha beira
ninguém mexe ninguém fala
ninguém dorme
eu sou um corpo-poema
inflamado morfema
que se inspira sem nome –
a poesia despe-me
sorve-me
e por fim
ao cair da noite eu sou
um rio
sou vulcão
glaciar –
de dia, nasço poesia –
à noite
alguém me vem
declamar.
segunda-feira, agosto 28, 2006
sexta-feira, agosto 11, 2006
à luz do teu olhar
ouço os gestos
de cada sabor
da música dos meus braços.
agarro-te o corpo
como quem chove
como quem diz as palavras todas
os vazios à nossa volta
crescem de tom.
muralhas secas
e nós
a lama quente
em que hora dirias tu
do teu amor
sagrado
por mim?
que canção entoaria eu
entre os teus dedos
chovidos?
que beijo mordido
te cantaria
mordaz
a minha língua?
esqueçamo-nos de ti e de mim
para nos lembrarmos
de nós
lá fora dos muros
esvoaçam as gaivotas
há tempestade
no mar
dos nossos corpos.
quinta-feira, agosto 10, 2006

nada te of’reço senão nuvens
cinzentas em força
graves no olhar.
eu ouço-te
estás na rua a chamar
por mim.
e cantas o meu nome
ao som de flores
nada te of’reço
envolvo-te cinzenta
e grave e fria
e estende-se uma chuva meiga
sobre as flores da tua voz
perdi-me no caminho
de me oferecer a ti
e o teu ramo tornou-se
cinzento
e frio
no meu corpo.
estás na rua
lavado pela meiguice da chuva
as árvores estão de costas
ouve-se o sincero silêncio
de um vento quente
e preguiçoso.
ouve-se o paralelo macio
a reclamar baixinho.
caminhas
devagar
com flores nos braços
e chuva na voz.
e eu
cinzenta e da janela
atiro-te palavras com as mãos
enrolada no meu próprio corpo
cheira a nuvens de terra
cheira a mim
nada mais te of’reço
amor da minha rua
dou-me toda a ti
às tuas flores
e não sou senão chuva cinzenta
em paralelo macio
do teu rosto.
domingo, agosto 06, 2006
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