domingo, setembro 26, 2010

trago-te na saliva dos meus olhos
retrato inaugurado a cada olhar
e seguro-te no corpo
caído em estrago
a cada passar do tempo.
não és mais que o sussurro do meu ser
e és no entanto mais
que qualquer mundo
espalhado
espelhado.
arranco-te de cada livro
cada página
e brinco com os teus braços
ao som dos meus –
na esfera infindável
do morrer
e renascer.
alegro-me de ti
a cada viagem de montanhas
e gritos e ventos e chamas
mas tu não chamas
não ouves não dizes não és.
se tu és a imagem que fica de mim
em cada resto em cada parte
em cada inverno
tu és o que eu sou doente intacta
paraíso inferno
uma deusa que beija
e que mata.
se a ti que trago no medo
e nas certezas
se a ti que carrego nos dias
nas horas
nas tristezas
se a ti tenho de olhar e
tentar entender
então não perco de olhar-te
sugar-te a luz e levar-te
eu quero ser-te
a saliva
o abraço
o condão
trocar o passo
embalar-te
esfolar-te no chão.
e é ao trazer-te
que te limpo o olhar
que te dou de beber
e te digo que o tempo
é mais confuso se passa
é mais tranquilo se pára.
e à fome nossa de abrigo
trocamos olhos de lava
– somos só uma de vez –
duas almas em corpo
de diva.
e no sossego que se segue
seguro-te de novo
no corpo
e enxugo dos olhos a saliva.

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