domingo, março 29, 2009

ao meu pai......

os teus olhos salgados da manhã
são o céu que se transformou
à minha volta.
depois da terra pesada
que se abateu por entre nós
resta-me
pensar que a vida
é toda esta morte sem sorte
que o grito
é este tom abafado
que nos faz explodir as gargantas
e que os sítios onde estás
são todos os sítios onde estou.
cada manhã salva sempre
cada outra noite de fome
de silêncio azedo
e de sorrisos lembrados
que se evaporam como espuma
triste.
salvo-me em cada manhã
depois de cada escuro
me tirar as forças
e sorrio.
um sorriso tão terrível
que me faz tremer
e ter frio e fome e cansaço.
um dia eu vou acordar inteira
tão mais longe de ti quanto perto
e não haverá cheiros de terra
nem sorrisos terríveis
nem céus salgados de frio.
apenas um calor
a soluçar baixinho –
cada vez mais baixinho –
e talvez eu consiga perceber
que os castigos
afinal
são salvações.
quando eu conseguir passar
em todos os sítios
e olhar todas as coisas
sem perder as forças,
é porque finalmente
a terra assentou de vez.
e o brilho salgado da manhã
é o teu calor
em mim.

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